Os poemas criados para o projeto-blog “Escrevo ao vivo” se constituem nos textos (re)escritos para o livro homônimo e que já está disponível para o público leitor. O título desta breve resenha possui como ponto de partida as primeiras três palavras de abertura de outro texto que foi abrigado nas orelhas do livro impresso. Ter a responsabilidade de produzir resenhas não é tarefa simples, ao contrário do que aparenta ser. Deveríamos nos ater basicamente aos elementos que compõem o texto que foi colocado como alvo da leitura. E aqui é o que nos arriscaremos a fazer, o que denominamos de episódio dois, na continuidade de performar o ato de ler ao vivo. Os poemas, devo relembrar aqui, foram produzidos e classificados pelo próprio autor como “poemas-reportagem”, pois a ideia era que servissem de ponto de chegada opcional (arriscamos pensar nesta possibilidade a partir de nossa leitura) às manchetes e reportagens que serviram de ponto de partida a cada um dos textos. E o projeto “Escrevo ao vivo” transposto para o formato livro, reuniu textos produzidos de 2005 a 2015. Mais do que simplesmente reeditar a ancestral relação entre literatura e imprensa, o projeto e seus resultados, até agora divulgados, apontam para um dos exercícios de jogo estético da escrita de Anízio Vianna.

Gostaríamos de reforçar para leitores e leitoras que desejem o caminho da escrita poética, as ações do trabalho realizado constantemente, “apenas” para o projeto de escrita ao vivo: ler, observar, recolher/escolher, escrever e reelaborar. Queremos relembrar também aos leitores e leitoras que outros nomes da tradição literária negra e/ou afro-brasileira, como Machado de Assis, Paula Brito, Lima Barreto também atuaram e/ou utilizaram o jornal, a notícia como matéria bruta para o exercício de suas construções literárias e, ainda, como fonte de temas para o debate intelectual constante e exercício crítico sobre o mundo à sua volta. Escolhemos para a leitura nesse episódio dois, também devido aos acontecimentos mais recentes da política brasileira, a partir do ano de 2014, os versos-questões do poema “O ovo da serpente” (VIANNA, 2016, p. 129): “Quem na nação choca o ovo da serpente?/ Queima a nação ou apenas alguns de sua gente?/ Quem na nação ora ardentemente?/Queima a nação ou apenas os de pele negra e adolescente?”. Chamamos à atenção para o jogo sonoro-semântico proposto pelo poeta ao alternar, no início dos versos, o pronome “quem” e o verbo “queima”. Poetas são pesquisadores quase incansáveis sobre o poder que pode possuir uma palavra. E Vianna parece não se furtar a esse exercício de busca. Ao contrário de ser uma ação de facilidade aparente, propor alterar o significado da leitura dos versos a partir de um jogo de troca, o escritor afro-belorizontino coloca, ainda, à disposição do público leitor os dados da memória: evoca à mente contemporânea o terror ocorrido no passado e sua ligação nem sempre explícita com os massacres financiados pelo tempo presente. Outra característica presente em todo o poema é a musicalidade impressa no ritmo e nas terminações sonoras dos versos, mesmo graficamente interrompidas pelo sinal de interrogação. Até o último verso do poema, o sinal gráfico pede a pausa, já o som e o sentido exigem continuidade…

Para finalizar este segundo, e brevíssimo, exercício de leitura e apresentação, traremos trecho do poema “Sobre marcas e metas” (devemos registrar que todos os títulos de poemas se encontram grafados no livro em caixa-alta – letras maiúsculas, para os não iniciados em editoração). O livro foi lançado no país pós-olimpíadas (foram duas, não se esqueçam da paraolimpíada), depois e durante aqueles tumultuados acontecimentos políticos. No meio do poema, literal e graficamente, parece surgir a indicação de outro caminho: “proponho lentidão/ nas pernas/ rezas/ honrarias/ {o embate humano é com a vida}” (VIANNA, 2016, p.67). Há outros poemas e outros versos… Porém, devo encerrar, interromper na proposta simbólica e nada singela sugerida no próprio poema: devemos nos haver, mesmo literariamente, é com a pele mais profunda e desafiadora: a vida. Lemos, todos os dias, mesmo sem querer/perceber que a leitura/reescrita é, e talvez será sempre, ao vivo…

Referência

VIANNA, Anízio. Escrevo ao vivo: poemas. Ensaio fotográfico de Tatiana Castro Junqueira. Ilustrações de Laura Athayde e Leonardo Arreguí. Belo Horizonte: Quarto Setor Editorial, 2016. Ilustração de capa: Binho Barreto.

Adélcio de Souza Cruz, Doutor em Literatura Comparada e Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é professor de Teoria da Literatura e Literatura brasileira do Departamento de Letras da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Também é licenciado em Letras – Língua Inglesa – pela UFMG. Ademais, é pesquisador dos núcleos NEIA e NELAP da Faculdade de Letras da UFMG. Atualmente, coordena o projeto de pesquisa “Literatura contemporânea brasileira: diálogos e desafios”, vinculado à linha de pesquisa “Literatura, cultura e sociedade” do Departamento de Letras da UFV.