A poesia é um centauro. A faculdade intelectiva e aclaradora que articula palavras deve movimentar-se e saltar, juntamente, com as faculdades energéticas, sensitivas, musicais.


Esta maneira de perceber a poesia, publicada por Ezra Pound em 1913, parece acertada porque continua viva. A poesia é um bicho que não existe por si só. Ela deve ser sempre reinventada pela maneira como os autores se expressam em palavras por meio do uso das emoções proporcionada pela musicalidade do idioma (não se entenda, aqui, apenas a palavra cantada, a letra da canção). O mais fundamental na poesia é utilizar-se da música própria de uma língua, da fala, do gorjeio natural da nossa espécie.

Vale lembrar essas características básicas da linguagem poética para falar mais adequadamente do livro de estreia de Anízio Vianna, “Dublê de Anjo” (Mazza Edições, 1996). Não se trata apenas de um belo livro, de cunho intimista, merecedor do Prêmio Nacional de Poesia Cidade de Belo Horizonte. O que o autor nos apresenta é algo mais: um livro que apresenta resultados interessantes da pesquisa de como fazer saltar (nu) de novo esse centauro que é a poesia.

Explico: neste ano (1997), a Literatura brasileira está envolvida em avaliar de novo as aquisições de linguagem advindas da produção poética, editorial e crítica, e aqui inclui-se a tradutória, deflagrada, em 1956, pelo Movimento de Poesia Concreta, que, aliás, colocou os escritos e a poesia de Pound em circulação entre nós. Ocorre que o grande motivo de continuarmos a falar de poesia concreta é que não temos mais sobre o que falar. A poesia brasileira hoje, salvo os trabalhos daqueles que foram “concretistas”, ou quer, ainda, ignorar a poesia concreta ou pretende eternizá-la às custas de sua força, devido ao alto grau de informação estética nova que veiculava.

A poesia de Anízio Vianna, embora mostre em sua tessitura toda a falta de certeza de quem, só agora, se livra dos versos da adolescência, constitui uma das poucas tentativas de superar o impasse esquecimento x diluição da poesia brasileira. Ela quer fazer o centauro saltar (nu) de novo, de arco em punho e de olhos cravados no alvo. E, para isso, canta. Quase todos os poemas do livro se caracterizam por um procedimento de simbiose sinergética entre o fluxo de consciência que articula as palavras e a cadência na qual estes se articulam, ou seja, um não vive sem as energias do outro, mas a soma das partes é maior que o todo.

A fluidez “prosaica” do texto, longe de diluir sua força, permite que o autor reinvente unidades rítmicas que se baseiam, como a poesia grega, na alternância de pés e não na quantidade de sílabas ou em rimas. Fato que permite a escrita de um poema longo.

Não é verso, mas como está próximo da fala é altamente propenso à voz. Esses poemas pedem para serem declamados (vocalizados) e são extensos o suficiente para sê-lo. Repetindo versos, palavras, ritmos, Anízio Vianna recupera um procedimento desenvolvido à exaustão pelo poeta concreto alemão o Helmut Heißenbüttel (que ele certamente desconhece, porque os registros do poeta no Brasil limitam-se à simples menção em artigos antigos de Haroldo de Campos e Anatol Rosenfeld).

Heißenbüttel quis transformar, por “potenciação”, a redundância em informação estética. Isto é o que salva Anízio Vianna da tentação da prolixidade, em que caiu, por exemplo, Néstor Perlongher, outro poeta que tentou dar uma fluidez prosaica ao texto poético. O resultado disso‚ um texto enxuto, sintético, poético e cadente o suficiente para exigir a si o espetáculo da voz. Enfim, como há muito não o tínhamos na poesia brasileira que tem se caracterizado por poemas curtos demais com textos em que os autores dão importância, como nas conversas de madame, mais com seu assunto do que com o modo como repetem um a fala do outro.

Rui Rothe-Neves Professor titular da Faculdade de Letras da UFMG

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