Ana Elisa Ribeiro | ESCREVO AO VIVO


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  • Ana Elisa Ribeiro


    “Quais eram as condições em que viviam as mulheres? Perguntei-me; pois a ficção, trabalho imaginativo que é, não cai como um seixo no chão, como talvez ocorra com a ciência; a ficção é como uma teia de aranha, presa apenas levemente, talvez, mas ainda assim presa à vida pelos quatro cantos.”
    Virgínia Woolf

    Para a estreia de O QUE LI o poema escolhido foi renascença do livro fresta por onde olhar1, de Ana Elisa Ribeiro. Arrisco dizer que talvez seja um dos seus poemas mais líricos. A autora abandona certo pendor à blague e ao poema-piada, presente em muitas de suas produções, para realizar um mergulho no qual as notas, aparentemente autobiográficas, estabelecem uma ponte entre o texto e o leitor. Quem nunca mudou de casa ou ajudou alguém a realizar tal tarefa? De forma gradativa, o leitor adentra esse novo espaço em construção.

    Para quem vive ou conhece a cidade de Belo Horizonte, o título do poema nos situa geograficamente: Renascença, bairro da região nordeste de Belo Horizonte. Mas, sobretudo, nos dá a senha para as expectativas do eu-lírico. Como animal que troca a pele, há o anseio de renascer para as coisas. Estabelecer novas relações. Já nas primeiras estrofes lemos descrições do terreno: “plano”, “raro”, “quase quadrado”, “simétrico e alinhado”:

    na esquina exata entre / os meus sonhos / e as tarefas/ de dona-de-casa.

    O eu-lírico se situa entre a visibilidade de seus sonhos que a esperam na esquina (personificados, portanto) e a invisibilidade social do trabalho doméstico. Difícil não citar uma frase emblemática escrita pela filosófa Susan Sontag em seus diários, no ano de 1961: “Para escrever, você deve se autorizar a ser a pessoa que você não quer ser (de todas as pessoas que você é)”2. E a autora constrói um eu-lírico que se autoriza. Dentre os muitos planos de vida, no habitat recente, a nova casa subverte o espaço destinado ao feminino. É uma casa também aberta ao desejo.

    A casa em que eu vou morar / com meus homens / quase todos

    Os dois versos no plural ecoam uma conquista ainda não totalmente naturalizada. A dona da casa tem voz e paixões. Todavia, as tais “tarefas” não cessam. E, por mais que o terreno se mostre seguro e capaz de sustentar o alicerce da casa antiga, sempre é bom não esquecer que: “embaixo dele é aterro.” Sobre esse aterro a determinação de plantar seu “último suspiro”

    Muito se escreveu a respeito do poder exercido sobre o corpo do sujeito.  Há lugares e tarefas socialmente instituídos para os gêneros. Contudo, Foucault nos alerta que “o poder se exerce, não se possui. Não se guarda numa caixinha”3. Mesmo que haja caixas de sapatos. Os lugares de controle sobre as mulheres (numa espécie de combo mãe-esposa-dona-de-casa) também podem ser espaços de poder por meio de uma obediência aparente e uma desobediência real. O que Barbieri chamou “manipulação da subordinação” 4.

    Ao abrir a casa para os “homens / quase todos”, o eu-lírico nos diz que a sexualidade não está limitada a espaços circunscritos socialmente e marginalizados. Os versos aproximam a rua da casa e desafiam tal dicotomia. Rua & Casa são mais que espaços geográficos porque podemos entendê-los como: entidades morais, microuniversos de ação social, províncias éticas, domínios culturais institucionalizados5.

    O poema desvela uma mudança física (a ida para uma nova casa) e uma mudança no campo sutil dos sentimentos. Esta mudança ocorre na medida em que o eu-lírico busca estabelecer para si uma nova relação com os objetos da casa. Sem armários, ainda,  e à espera de anéis e relógios. A “nova” casa é lugar de reconstituição do passado impossível (“Nesta casa/ viverei minha infância”) e de vivência de um paradoxo: ao renovar a casa o eu-lírico criou um espaço de liberdade e prisão. 

    Não há vista, / nem há os lados.
    Apenas os muros / altos e fechados
    e o céu zenital / jamais alcançado.

    Imagem relacionada

    Primeira Edição, 1929.

    Em 1928, numa palestra na Universidade da Inglaterra, Virgínia Woolf se indagou por que as mulheres escrevem/publicam menos que os homens. A Room of One’s Own se tornou um texto emblemático do século XX e renascença ecoa as vozes de muit@s que buscam ter um teto todo seu, ainda que de vidro:

    Comprei janelas caras.
    Refiz os batentes das portas.
    Reorganizei o telhado,
    mas ele continuou de vidro.

    A conclusão de Woolf é simples e verdadeira: “a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção” 6. O poema renascença é um texto pregado à vida (vivida ou não) e desvela o sonho e a desesperança porque “nem tudo /será novidade“. Afinal, debaixo daquele aterro há algo. O que será?

    Foto: Rafael F Carvalho


    renascença

    Ana Elisa Ribeiro

    A casa em que eu vou morar
    com meus homens
    quase todos
    fica em um terreno
    plano e raro
    na região nordeste
    da capital
    na esquina exata entre
    os meus sonhos
    e as tarefas
    de dona-de-casa.

    É um terreno
    quase quadrado
    simétrico e alinhado
    com as duas ruas
    que o ladeiam.

    Embaixo dele é aterro.
    Sobre ele plantarei meu último suspiro.

    A casa é antiga e feia.
    Depois que me tornei
    dona dela,
    chamei um engenheiro
    que reformou o meu futuro.

    Comprei janelas caras.
    Refiz os batentes das portas.
    Reorganizei o telhado,
    mas ele continuou de vidro.

    Ainda não há armários
    onde eu possa guardar
    minhas roupas quase iguais.

    Meus sonhos,
    que eram imensos,
    haverão de caber dentro
    das caixas de sapatos.

    Na mudança,
    estarei muito preocupada
    em trazer meus anéis
    e minhas memórias,
    mesmo as que estão
    quase apagadas,
    e os relógios,
    por onde meço
    meus desapegos.

    Nesta casa,
    viverei minha infância.
    Minha velhice será lenda.
    Gosto da nova casa,
    onde nem tudo
    será novidade,
    mesmo quando constato, aliviada,
    que lá de dentro
    não vejo nada.

    Não há vista,
    nem há os lados.
    Apenas os muros
    altos e fechados
    e o céu zenital
    jamais alcançado.

    Foto: inconfidencias.com.br

    Ana Elisa Ribeiro nasceu em 1975, em Belo Horizonte, onde vive. Trabalha no CEFET-Minas Gerais. Escreveu uma pá de livros e artigos. É autora de Poesinha (1997), Perversa (2002), Fresta por onde olhar (2008), Anzol de Pescar Infernos (2013) e por aí vai…


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    1. RIBEIRO, Ana Elisa. Fresta por onde olhar. Belo Horizonte: Interditado, 2008. Página 14.
    2. Trechos de ‘Diários (1947-63)’, de Susan Sontag. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
    3. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: edições Graal, 1979
    4. BARBIERI, Teresita de. Sobre a Categoria Gênero: uma introdução teórico-metodológica. Recife: S.O.S Corpo, 1993
    5. DAMATTA, Roberto. A casa & a rua. Espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
    6. WOOLF, Virgínia. Um teto todo Céu. São Paulo: Círculo do livro, s.d.